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Eduardo Leite e o “sujeito automático” de Marx.

Por Regis Marat - professor de História e Filosofia da Rede Pública de São Paulo.



A genial descoberta de Marx, para além da dinâmica ou da dominação de classes no sistema capitalista, reside no fetichismo da mercadoria ou mais exatamente no trabalho alienado ou estranhando como diria Lukacs. É essa atividade ou o trabalho produtor de mercadorias, trabalho proletário (Kurz, Postone) que produz a mediação social plasmada pelo valor. Neste sentido, as mercadorias se relacionam diretamente entre si através dos indivíduos e estes, por sua vez, se relacionam indiretamente através das mercadorias. Em outras palavras, estamos na sociedade da mercadoria e esta plasma tanto a subjetividade dos indivíduos quanto a objetividade do mundo do capital.


A declaração do governador Eduardo Leite, de que as doações podem comprometer o comércio local é a expressão mais autêntica e confirma a tese marxiana estampada em O Capital, sobre a dominação abstrata, impessoal e temporal do valor em expansão e que responde pelo nome de capital. Dominação que grassa sobre todos nós. Essa sintomática declaração aponta para o perigo  das relações sociais plasmada pelas mercadorias serem substituídas por relações de solidariedade, como essas que estão ocorrendo em meio a tragédia no Rio Grande do Sul! É a substituição dos laços sociais pautado pelas mercadorias por laços sociais baseados na solidariedade humana, coisa inaceitável para a lógica do capital! Eduardo Leite agiu como um autêntico personagem do “sujeito automático” ou a substância automovente do mundo do capital. É como se Eduardo Leite alertasse o povo sobre os perigos da cooperação ou da premente necessidade de voltarmos a competição. Essa declaração, em que pese a sua despercebida irracionalidade, não contraria a lógica do sistema cuja produção de mercadorias visa a reprodução ampliada do próprio sistema e não o atendimento das demandas humanas. Leite evidenciou a face desumana do capitalismo e ao mesmo tempo apontou a evidente possibilidade de uma sociedade verdadeiramente humana.


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