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Adeus, Dussel!

Atualizado: 7 de nov. de 2023

Poucas palavras para um grande filósofo!


Imagem disponível em: Enrique Dussel: por qué fue nombrado el filósofo de la Liberación


Por: Diretoria da APROFFIB


A filosofia é linda, é apaixonante, mas se não fala de nós e para nós, nada fala! Assim, não passa de tratado intelectualista, daqueles que muito falam, mas nada transformam, ou, ainda pior, daqueles que muito falam e propositadamente mantém tudo exatamente como está. Dussel representou a filosofia transformadora.


A filosofia é o campo do conhecimento humano dos grandes embates, formada por diversas filosofias, várias maneiras de ver e tentar explicar o mundo e a realidade, e mesmo muitas intenções de manter a realidade ou transformá-la. Dussel propôs transformá-la.


No quadro daqueles que desejam transformar a realidade, a filosofia dispõe de Enrique Dussel, aliás, não dispõe mais. De Enrique Dussel – grande filósofo latino-americano – restam os pensamentos e as propostas libertadoras contidas em dezenas de livros e centenas de artigos.


Enrique Domingo Dussel Ambrosini, ou simplesmente Enrique Dussel, nascido em Mendoza, Argentina, um dia antes do natal de 1934, faleceu ontem [domingo – 5/11 – na Cidade do México] aos 89 anos. Além de pensador crítico, foi Reitor interino e professor na Universidad Autónoma de la Ciudad de México – UACM, teólogo e historiador. Sua história se assemelha a de muitos intelectuais latino-americanos, [vamos nos permitir este termo apenas nesta simples homenagem] claro, porque após a formação acadêmica iniciada na terra natal e concluída na Europa, viveu as pressões e perseguições da ditadura na década de 1970, fazendo com que se exilasse em 1975 no México.


Então, mesmo antes de partir para o México ele já desenvolvia os seus pensamentos e propostas para a libertação latino-americana, contra todos os obstáculos e críticas, num esforço para talvez contrariar Hegel, que disse em Lecciones sobre la historia de la filosofia que para “filosofar é necessário que a formação espiritual de um povo tenha atingido certo nível de desenvolvimento”, ou, talvez concordando com o filósofo alemão, seu esforço tenha sido para alavancar esse nível de desenvolvimento.


Falamos de Hegel aqui porque não é possível falar de Dussel sem mencionar Hegel, para quem a filosofia era uma das marcas da excepcionalidade europeia [especialmente a filosofia grega e a alemã] e para quem no Oriente e África não havia nem haveria filosofia e no Novo Mundo, as Américas, poderia haver, dependendo de sua formação histórica e da autoconsciência. Ocorre que a América Latina, assim como todo o Sul Global não foi “feita” para se desenvolver nem para ser autossuficiente, não existe para a autonomia, mas para a servidão e exploração e dependência. Dessa forma, como pensar em maturidade de consciência necessária para filosofar? Como produzir uma filosofia genuinamente latino-americana? Como superar a forma europeia de filosofia num continente formado por povos oriundos de todos os lugares do mundo, colonizados e reprodutores do pensamento dos senhores europeus [dominantes]? Dussel não se intimidou diante dessas dificuldades, acreditou na Filosofia da Libertação, na Ética da Libertação enquanto viveu entre nós.


Dussel é considerado o “pai” da Filosofia da Libertação, que procura a singularidade do pensamento latino-americano, decorrente da sua formação histórica e cultural e a sua relação com a própria natureza regional desapegando-se do olhar europeu e o seu sentimento de excepcionalidade. É justo lembrar que já havia uma discussão no continente acerca da possibilidade de uma filosofia autêntica da América latina, especialmente numa espécie de confronto entre as ideias de Augusto Salazar-Bondy e Leopoldo Zea.


Voltando a Dussel, sua filosofia tinha caráter periférico e voltado para a periferia, especialmente a Filosofia da Libertação, uma obra influenciada pela teologia da libertação, vinculada ao Outro, na qual o autor inicia com as seguintes palavras:

O que segue é dirigido ao que se inicia em filosofia. Por isso, este curto trabalho, sem bibliografia alguma, porque os livros de minha biblioteca estão longe, na pátria, escrito na dor do exílio, quer ser sentencioso, quase oracular. Não pretende ser uma exposição completa, mas antes um discurso que vai travando tese após tese, proposta após proposta. É somente um marco teórico filosófico provisório”.

Título do original castelhano: Filosofía de la Liberación, Editorial Edicol, México, 1977. Coedição brasileira de Edições Loyola e Editora UNIMEP, Coleção Reflexão Latino-Americana – 3, I. Tradução de João Gaio. p. 7. Disponível para baixar em PDF:


Por um lado homenagear Dussel é tarefa fácil e gratificante, por conta da grandeza de sua obra e abundância das fontes, mas por outro lado não é fácil justamente pelas mesmas razões. Ocorre que Dussel merece ser aprofundado, na verdade, precisa ser aprofundado, porque ou fazemos isso ou nos conformamos com a eterna condição de colonizados/as.


O Movimento da Libertação ou Corrente Filosófica da Libertação dispõe de mais autores/as cujos pensamentos devem ser conhecidos e estudados. Citamos: Paulo Freire, Anibal Quijano, o anteriormente citado Leopoldo Zea, Maria Lugones e Gloria Anzaldúa. Veja mais em: Filosofia da Libertação – Movimento Filosófico da América Latina, por Aline Miranda. Disponível em: https://umasulamericana.com/filosofia-da-libertacao-america-latina/


Veja também a entrevista com Doutor em Direitos Humanos Alejandro Rosillo Martínez, relacionando a Filosofia da Libertação com os Direitos Humanos na América Latina. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/535730-filosofia-da-libertacao-como-ponto-de-partida-para-pensar-os-direitos-humanos-na-america-latina-entrevista-especial-com-alejandro-rosillo-martinez


Dessa forma, infelizmente, só podemos lamentar a partida de Enrique Dussel, cuja filosofia certamente é uma das diversas filosofias que formam a Filosofia, que engrandecem a Filosofia, que pode e deve cumprir o seu objetivo, ou seja, transformar a América Latina.



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