IX Reunião de Estudos de Cheikh Anta Diop – Núcleo de Filosofia Pan-africanista da Aproffib
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- 20 de jul. de 2025
- 5 min de leitura
Resenha do Capitulo VII – Prof. Marco Tulio Cunha Vilela

Na IX reunião de estudos do livro A origem africana da civilização, o Prof. Marco Túlio Cunha Vilela apresentou o Cap. VII Argumentos Suportando uma Origem Negra, com mediação da Profa. Neuza Peres.
Cheikh Anta Diop dedicou boa parte de sua obra à desconstrução da narrativa eurocêntrica que tenta desvincular o Egito Antigo de suas raízes africanas. No Capítulo VII do livro A Origem Africana da Civilização, Diop aprofunda essa crítica, reunindo e expandindo os argumentos construídos ao longo dos capítulos anteriores. O objetivo é: refutar as interpretações históricas e antropológicas propostas por egiptólogos europeus que defendem uma suposta branquitude dos egípcios e uma pretensa correlação cultural entre o Egito e a Europa.
Neste capítulo, Diop realiza uma reconstituição detalhada da civilização egípcia, combinando evidências de diversas áreas do saber, como a geografia, a política, a religião, a arte, a linguística e a estrutura social, em uma análise integrada e rigorosamente científica. Longe de fazer suposições ou conjecturas infundadas, o autor se apoia em dados empíricos, em achados arqueológicos, em comparações linguísticas e em testemunhos da Antiguidade para sustentar sua tese: o Egito era, antes de tudo, uma civilização africana negra.
Entre os aportes mais relevantes feitos por Diop no Capítulo VII, destacam-se os vínculos entre religião e linguagem. Essa conexão, que seria aprofundada em obras posteriores como A Unidade Cultural da África Negra, revela a profundidade das raízes africanas do Egito. Diop mostra que há semelhanças fonéticas notáveis entre o egípcio antigo e línguas africanas como o wolof, mas vai além ao analisar também a linguagem em seu sentido mais amplo, o universo de significados compartilhados por meio de símbolos, mitos, rituais e práticas culturais. Isso revela uma cosmovisão comum entre os egípcios e os demais povos africanos, algo que não se verifica quando o Egito é comparado, por exemplo, com as civilizações helênicas.
De fato, Diop argumenta que, embora os gregos tenham herdado alguns mitos e elementos religiosos dos egípcios, a forma como esses elementos foram incorporados revela uma ruptura ontológica e cultural qualitativa. Enquanto o Egito expressava uma estrutura de mundo matrilinear, animista e integrada à natureza, a Grécia antiga organizava sua religiosidade dentro de uma lógica patriarcal e antropocêntrica. A citação do próprio Diop ilustra com clareza essa distinção:
“Agora que a essência moral do deus [1] está suficientemente esclarecida, ao mesmo tempo que as concepções domésticas meridionais e arianas, torna-se mais fácil compreender as catástrofes e as perturbações que o ensinamento de Dionísio viria provocar nas sociedades indo-europeias: viria a quebrar a couraça de bronze com que o homem ariano as tinha cercado, abrir as portas da consciência feminina, levar a exaltação da mulher a seu grau mais elevado e colocar ao homem ariano o problema mais grave que este jamais teve de resolver. A vida nas estepes eurasiáticas, nas condições do nomadismo – tal como vimos – tinha-o acostumado a ver a mulher não tanto como uma companheira na sociedade, mas como instrumento que permitiria assegurar sua descendência, saldar uma dívida para com os antepassados ao prolongar a linhagem racial, ao não permitir que esta não se extinguisse a partir dele, ao assegurar assim a imortalidade.” (Diop, 2014, p. 158-159)
[1] Diop sustenta e argumenta que Dionísio seria uma representação de Osíris e Isis, casal de deuses egípcios, que foi absorvido pelos gregos e incorporado em suas práticas religiosas e ritualísticas, mas de uma forma subvertida.
Ao comparar essas estruturas civilizatórias, Diop reforça sua conclusão de que seria extremamente improvável a origem branca dos egípcios. Os egípcios não apenas não compartilham os traços culturais fundamentais das sociedades europeias e indo europeias, como apresentam uma impressionante continuidade cultural com diversas civilizações negras africanas. Trata-se, portanto, de uma questão de forma e conteúdo: as instituições, os valores, a espiritualidade e até mesmo a organização familiar dos egípcios antigos dialogam com o mundo negro-africano, e não com o ocidental.
Diop ainda faz uma crítica incisiva ao modo como os pesquisadores europeus organizaram e sistematizaram suas investigações sobre o Egito. Segundo ele, tais investigações se baseavam em um recurso metodológico que denomina “abstração filosófica”. Esse método, longe de partir da observação dos fatos concretos, transformava dados etnográficos reais em meras cogitações abstratas, operando mais como um exercício lógico do que como uma análise histórica ou antropológica rigorosa. Como afirma Diop, “dados etnográficos concretos foram transformados em cogitação, em um problema de lógica, em pura contemplação que nenhum fato poderia doravante perturbar por implicação”. Ou seja, uma vez estabelecida a hipótese por meios puramente conceituais, nenhuma evidência empírica contrária era capaz de abalar sua validade no interior daquele sistema discursivo.
Isso demonstra uma dimensão metodológica essencial. Os instrumentos de análise utilizados pelos egiptólogos europeus não se baseavam na verificação empírica, mas em uma ciência especulativa. Tal ciência consistia em uma reflexão conceitual autossuficiente, sustentada por argumentos logicamente encadeados, mas desconectados da realidade concreta. Isso não apenas deslegitimava outras formas de conhecimento mais vinculadas à observação e à experiência, como também reforçava estruturas de poder dentro do campo científico.
A “abstração filosófica” sempre foi, segundo Diop, um recurso amplamente utilizado por intelectuais europeus, sobretudo porque ocupavam os espaços discursivos de autoridade. Detendo o controle das universidades, dos periódicos científicos, das academias e dos centros de pesquisa, os pensadores europeus definiram, por muito tempo, o que podia ser considerado verdadeiro ou falso, científico ou não científico. Por isso, não se viam obrigados a verificar suas hipóteses de modo rigoroso, seu prestígio epistêmico bastava para legitimar suas afirmações.
Casos paradigmáticos dessa prática podem ser vistos em pensadores como Kant e Hegel, que atribuíram juízos depreciativos aos povos africanos sem qualquer investigação factual. Baseando-se apenas em opiniões racistas, esses autores criaram visões deturpadas da história e da cultura africana, que foram reproduzidas como se fossem verdades científicas. As consequências foram desastrosas: produziram falácias grotescas, revestidas de erudição, que serviram de base para justificar a inferiorização da África nos currículos escolares, nas políticas coloniais e nas ciências humanas em geral.
Desse modo, esse é o cerne da crítica de Diop: não há rigor científico nas análises feitas pelos egiptólogos e antropólogos europeus, mas apenas a expressão de um privilégio branco de fala. Esse privilégio permite que certos sujeitos se coloquem como autoridades em temas que não vivenciaram nem estudaram com o devido método, validando-se não pela força dos dados, mas pela posição de poder que ocupam na estrutura de produção do saber.
Assista a apresentação na íntegra:
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